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Diz a mitologia grega que Pandora, desobedecendo à ordem de não abrir a caixa que continha todos os males, ao abri-la, deixou que estes escapassem. Tentando fechá-la rapidamente, conservou dentro da caixa a esperança. Daí em diante, então, os homens foram atingidos por todos os males.
Sempre fica a pergunta: por que a esperança é tratada como mal? Existem várias interpretações, mas uma delas é a tradução de esperança como "antecipação", ou "temor irracional". Como Pandora fechou a tempo de manter a esperança dentro da caixa (ou jarro), os Homens não foram atingidos pelo mal de conhecer antecipadamente os males que os afligiriam, o que poderia ser pior.
O problema é que, embora guardada na caixa, a esperança aflige sim muitos dos seres humanos como uma coisa ruim, não pela antecipação do conhecimento dos males que o atingirão, mas por ficar esperando coisas sem que ajam. Têm ideias, mas por achar que as coisas acontecem por si só, não agem. A esperança de que as coisas aconteçam por si os prendem.
Todo ano, nesta época, muita gente vive e se alimenta desta forma de esperança. Pensam que, apenas pela mudança de ano, de ciclo do calendário, muita coisa vai mudar em sua vida. Isto é muito bem retratado no poema Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade, onde ele diz: "Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta; não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas, nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver". É claro que a mudança de ano nos remete a repensar muito o que fomos e o que queremos ser. Porém, não podemos acreditar que apenas com a mudança de ano as coisas irão mudar. A esperança não dá decretos, não muda nada. O que muda são ideias novas (ou antigas, que seja), mas que sejam transformadas em ações.
O que ocorre é que existe uma esperança que nos adormece (mantida dentro da nossa caixa de Pandora), mas também existe outra esperança, que é viva, que move as pessoas para a ação, para a realização, para a criação de um mundo que realmente deva ser o seu. E este mundo que queremos tem muito a ver com um sentimento infantil (não no sentido de bobagem, mas no sentido de pureza). De vez em quando é preciso que tenhamos este sentimento puro de vontade de um mundo melhor (esperança viva que a mão alcança, vem com seu papo firme e rosto de criança; a maldade já vimos demais - Beto Guedes, Contos da Lua Vaga). Sabemos que os grandes acontecimentos são fruto de coisas "pequenas" que vamos plantando em nosso dia-a-dia. Essas coisas pequenas começam com o resgate da essência da vida, que é o amor incondicional (o que será de nós se estivermos cansados da verdade do amor - Beto Guedes, Contos da Lua Vaga) e que seja, pouco a pouco que seja, posto em prática.
Enfim, estarmos já no ano novo não significa que as coisas mudarão por si. Elas mudarão ao passo que nós mudarmos nossos pequenos atos, que prestarmos mais atenção aos detalhes de nossas atitudes (detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes para esquecer - Detalhes, Roberto e Erasmo Carlos), que acreditemos no que podemos ser, mas que façamos o que tem que ser feito. Precisamos lembrar que a mudança ocorre de dentro para fora e não ao contrário (Para ganhar um ano-novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente; é dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre - Receita de Ano novo, Carlos Drummond de Andrade). Um 2010 realmente novo começa dentro de você! Feliz 2010!
Claudinet Antônio Coltri Júnior é palestrante; consultor organizacional; coordenador da área de gestão da Educação Tecnológica do Univag e escreve em A Gazeta às quintas-feiras. Web-site: www.coltri.com.br - E-mail: junior@coltri.com.br - Twitter: http://twitter.com/coltri
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