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Nunca esteve tão em voga a questão da fidelidade, tanto nos relacionamentos amorosos, quanto no comercial. Para discutir este tema, temos que entender primeiro o que significa ser fiel. Muitas vezes, um equívoco conceitual sobre uma palavra acaba gerando distorções. Entramos, assim, em discussões intermináveis.
Em minhas palestras e aulas, tenho percebido um problema crônico de entendimento de três palavras. Uma delas é a palavra "tendência". Quando pergunto o que é tendência, as pessoas respondem "moda". Tendência é propensão, ou seja, uma previsão de acontecimento futuro, realizada através de estudos de dados e fatos. Resumidamente é tentar adivinhar o futuro através do passado.
Outra é a palavra paradigma. As pessoas têm entendido que paradigma é mudança. E não é. Pelo contrário, é padrão, modelo. Ainda, estão acreditando que ele é ruim. Existem modelos, padrões que temos e que estão ultrapassados, sem dúvida, mas existem os que nos auxiliam a viver.
A última delas é a palavra "infinito". As pessoas confundem infinito com eterno. Vinícius de Moraes deve se "remexer no túmulo" a cada vez que alguém declama o Soneto da Fidelidade dizendo "que seja eterno enquanto dure". A última estrofe do soneto diz assim: "Eu possa dizer do amor (que tive): / que não seja imortal, posto que é chama (ou seja, se não é imortal porque é fogo, morre, se apaga, portanto não é eterno) / mas que seja infinito enquanto dure". Ele quer dizer que seja intenso, grande, imensurável. Podemos dizer que infinito se refere a tamanho e que eterno se refere a tempo.
Em sendo assim, ser infinito não significa ser eterno. Significa se dedicar intensamente naquele momento (o mundo vai acabar e ela só quer dançar - Natasha, Capital Inicial). Portanto, se comprometer com algo não significa eternizar, mas construir uma relação intensa, grandiosa, leal.
Chegamos assim, ao conceito de fidelidade que nada mais é que lealdade. Fiel é aquele que é digno de fé, leal, que cumpre a sua promessa. Confesso que achava uma grande bobagem quando via a frase "Deus é fiel". Acreditava que nós é que tínhamos que ser fiéis com ele. Ledo engano. Ele é digno de fé. Fidelidade não significa relacionamento único. Significa ser correto. Se não, Deus seria fiel apenas com um de nós.
Nos relacionamentos amorosos podemos exigir exclusividade. Eu disse podemos, não obrigatoriamente. Porque a fidelidade está ligada ao que foi compactuado. Na nossa cultura cristã, o relacionamento amoroso é monogâmico, de modo que, por tabela, o ato de assumir o compromisso com alguém pressupõe exclusividade. Em outras culturas (como a muçulmana, por exemplo), a mulher tem que se relacionar exclusivamente com um homem, mas o homem é fiel com até quatro - desde que as relações sejam constituídas dentro dos padrões estabelecidos.
Enfim, o erro das organizações é acreditar que o cliente tem que ser fiel com elas. Para se construir um relacionamento infinito, a empresa é que tem que ser fiel (digna de confiança, de fé - não que ela seja Deus). Deste modo, "a cada dez viagens, o cliente ganha uma", por exemplo, não é um programa em busca de exclusividade, mas de relacionamento. É de fidelidade dela conosco e não o contrário. Neste caso, nós, clientes, é que temos que confiar (portanto a empresa é que tem que ser digna de fé, não o cliente).
Antes de sairmos por aí implantando coisas, é importante que entendamos os conceitos para que não cometamos equívocos de interpretação. Imaginem as "damas da noite da Boate Azul" com um programa que exigisse um relacionamento exclusivo (sem querer, acabariam tendo que assumir o papel de titular e todas as suas implicações).
Resumidamente, cuidado com programas que busquem exclusividade. Esta, quando imposta, aprisiona. As pessoas até aceitam se prenderem, mas não gostam de serem presas. É preciso buscar a fidelidade em seu conceito pleno, ou seja, ser leal, cumprir o compactuado; não necessariamente ter um relacionamento único, nem para sempre, mas, intenso. É como diz Guilherme Arantes em Coração: "procuro sim quem me multiplique, não me faça promessas, não peça que fique!"
Claudinet Antônio Coltri Júnior é consultor organizacional; coordenador da área de gestão da Educação Tecnológica do Univag e escreve em A Gazeta às quintas-feiras. Web-site: www.coltri.com.br; E-mail: junior@coltri.com.br
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