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Às vezes a vida nos impõe situações-limite em que precisamos tomar decisões que afetarão sobremaneira a nossa vida. Muitas dessas vezes nos sentimos presos à forma em que vivemos. Tornamos-nos escravos de nossos hábitos.
Na verdade, hábitos são de extrema importância para o ser humano, visto que nos permitem não perder tempo com atividades rotineiras, libertando-nos para pensamentos e atos conscientes mais nobres. O que nos é habitual não nos toma a atenção enquanto estamos lidando com ele. Podemos fazê-lo e, ao mesmo tempo, pensar e até executar outras tarefas que nos exigem a concentração. Um hábito é um processo final de uma aprendizagem. Ele nos ancora, nos dá chão. Buscamos sempre adquirir hábitos.
Então, quando a vida nos impõe a necessidade da mudança de hábito, ele nos faz resistir a essa mudança. Sentimo-nos amarrados a ele.
Isto ocorre porque há uma fase entre o deixar um hábito e adquirir um novo, o que chamamos de fase de transição. Em todo processo de mudança não há fase pior que esta. Toda mudança pressupõe que você saia de um ponto onde está e vá para outro. É uma coisa básica, mas esquecemos sempre que para chegarmos a um novo ponto, é preciso percorrer um caminho. Esse caminho é a fase de transição. É uma fase dolorosa, mas inevitável.
A fase de transição, por ser o espaço entre o ponto de partida e o de chegada, nos deixa, via de regra, como se estivéssemos suspensos, sem ancoragem. Aquelas sensações de segurança que tínhamos, não temos mais. E o pior, ainda não tivemos as novas, não nos deliciamos com ela. Assim, a fase de transição nos amedronta por ser uma fase com ausência de hábitos.
Há como se livrar desse medo? Até por uma questão de fisiologia do cérebro com a reestruturação dos caminhos e interconexões formadas por nossos neurônios (nossos hábitos nada mais são que trilhas neurológicas bem estruturadas e fortalecidas pelo uso) eu acredito que não seja possível se livrar do medo. Inclusive o medo é salutar (nos ajuda na sobrevivência). O que podemos fazer é enfrentá-lo. O corajoso não é o que não tem medo, mas aquele que sabe enfrentá-lo.
A forma mais simples de enfrentar esse medo, essa fase de transição, é entender o processo. É saber que a coisa funciona assim. Se você tiver consciência que está desconfortável porque está vivendo um momento de perda de hábitos que o ancoravam e que vai adquirir novos que o ancorarão no futuro bem próximo, fica bem mais fácil encarar e passar pelo processo. Pense em sua vida. Não aconteceu com você de passar por um momento de mudança, ficar triste, se sentir sem chão, às vezes até desesperado(a) e, depois que passou tudo, você acabou gostando da nova situação?
Para passarmos melhor por essa fase precisamos entender que às vezes perdemos coisas, mas, em muitas ocasiões, escolhemos coisas, optamos. Já dizia Charlie Brown Junior na música Lutar pelo que é meu: "a cada escolha, uma renúncia, isto é a vida".
Entender o processo de transição nos torna livres, pois sabemos que podemos sempre escolher (In un mondo che prigioniero è respiriamo liberi - em um mundo em que é prisioneiro, respiramos livres, Il mio canto libero, Lucio Battist). Sabemos que deixaremos hábitos e adquiriremos outros. Passa a nos ser conveniente pagarmos o preço do desconforto pelas novas emoções e sensações que nos permitiremos viver (Nuove sensazioni, giovani emozioni, si esprimono purissime in noi - novas sensações, jovens emoções exprimem-se puríssimas em nós).
A sensação de liberdade é saber (não necessariamente fazer) que se pode transitar pelo mundo, pelas situações, deixando coisas, ganhando novas. É entender, também, que manter hábitos é uma escolha sua. Guilherme Arantes tem uma música chamada Coração, onde ele diz: procuro sim quem me multiplique, não me faça promessas, não peça que fique. Temos que ficar ou ir por escolha, por vontade nossa, não pela prisão a um hábito. Mais, precisamos assumir as responsabilidades da nossa escolha. Assim, ser livre não é fazer o que se quer, mas ser cônscio de que se pode escolher.
Claudinet Antônio Coltri Júnior é palestrante; consultor organizacional; coordenador da área de gestão da Educação Tecnológica do Univag e escreve em A Gazeta às quintas-feiras. Web-site: www.coltri.com.br - E-mail: junior@coltri.com.br - Twitter: http://twitter.com/coltri
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