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Um grande amigo me contou uma história sobre um reino muito, muito distante, que dizia mais ou menos assim: uma pessoa precisava de abrigo e bateu à porta do castelo. O serviçal que o atendeu disse que não podia abrigá-lo, visto que era a casa do rei. O desabrigado, então, pediu que chamasse o rei. Este, ao vir, disse não poder dar abrigo, visto que era a sua casa. Ele morava ali. O pedinte, então, disse que não era a casa do rei, visto que ele estava apenas de passagem. O rei disse que era sua casa sim. O pedinte, calmamente, fez uma pergunta ao rei: "antes de você, morava alguém aqui?". "Sim", disse o rei, "meu pai". O pedinte continuou: "e antes do seu pai?". Novamente o rei disse: "sim, meu avô". "E antes do seu avô?", continuou o pedinte. "Meu bisavô", disse o rei. E assim, o pedinte convenceu o rei que aquele não era o seu lugar. Ele apenas estava de passagem.
No trabalho a coisa é mais ou menos igual. Não somos, apenas estamos. Não somos um cargo, uma carreira. Apenas exercemos o papel por determinado tempo (que pode durar dias, meses, anos ou décadas). Em uma das minhas andanças por esta vida de consultor organizacional (que me dá muito prazer), certa vez me deparei com uma situação muito interessante. Estava em um órgão público passando por cada unidade para proferir uma minipalestra para os servidores com o fito de explicar o nosso trabalho de consultoria. A líder da seção, então, me ofereceu a mesa que ocupava para que eu pudesse instalar os equipamentos de multimídia. Então, perguntei a ela se não iria "bagunçar" a sua mesa. Ela, embora concursada, sem "pestanejar", me disse que não iria bagunçar. E mais: disse que aquela mesa era nossa, não era dela. Ela apenas a estava ocupando por determinado tempo. Estava líder da unidade. Uma verdadeira lição.
Devido a essas e a tantas outras, não posso deixar de parabenizar as pessoas que escolheram a carreira de servidor público. Isso vale para aqueles que são concursados e os que não, mas que deixam suas famílias algumas horas por dia para servir à nossa população.
É fato que existe certa rixa entre os concursados e não concursados. Os não concursados dizem que os outros não são comprometidos com o trabalho, pois tem estabilidade, salário garantido etc. Existem pessoas que prestaram concurso porque queriam trabalhar naquilo e fazem com gosto. Existem os que prestaram pelo dinheiro e estabilidade e descobriram prazer no que fazem. E existem aqueles que fazem "corpo mole", mesmo. Estes, mais do que prejudicar aos outros, estão prejudicando a si mesmos. Passam 35 anos de sua vida para, então, aposentados, poderem viver. Porém, os 35 anos de infelicidade podem custar caro demais. Inclusive com o risco de não completá-los e ficar pelo caminho.
Já os concursados dizem que os outros não são comprometidos porque estão de passagem. Como vimos no texto do início do artigo, todos estamos de passagem. Os concursados também estão. Vão se aposentar, vão morrer ou podem até pedir exoneração do cargo (conheço muitos que o fizeram em busca da felicidade que o trabalho já não propiciava). O que ocorre é que, na média, os não concursados saem mais cedo, só isso.
Na verdade, tudo isto é irrelevante. O que vale é o que vai dentro do coração. Meus trabalhos na área pública têm me mostrado que existem concursados e não concursados comprometidos e descomprometidos. O escritor e palestrante Eugênio Mussak diz uma frase muito importante ao comparar o eterno e o infinito. Ele diz que comprometimento não é construir relações eternas, mas relações infinitas. E ele tem razão, visto que o eterno se reporta a tempo e o infinito a tamanho, intensidade. Portanto, servidor, não importa o tempo que você dedica, ou dedicou ao servir aos cidadãos de uma cidade, estado ou país. Não importa se é concursado ou não concursado. O que importa é quanta dedicação você emprega (ou empregou) no seu dia a dia. Por essas e outras, fica aqui o meu agradecimento e meus parabéns àqueles (e que são muitos) que fazem valer a sua honradez, o caráter, a vontade, o respeito ao outro, ao cidadão; que sabem que estão de passagem e, em sendo assim, fazem do seu trabalho a sua obra, o seu legado.
Claudinet Antônio Coltri Júnior é palestrante; consultor organizacional; coordenador da área de gestão da Educação Tecnológica do Univag e escreve em A Gazeta às quintas-feiras. Web-site: www.coltri.com.br - E-mail: junior@coltri.com.br - Twitter: http://twitter.com/coltri
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