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Uma das características do nosso cérebro é que ele tende a reduzir variáveis para que possamos dar uma definição, fazer uma imagem, estabelecer uma marca sobre algo de um modo mais rápido. Neste prisma, acabamos por "tachar" (colocar tachinhas, fixar - no sentido de definir) algumas profissões. Dizem que algumas delas fazem as pessoas que as escolheram acharem que são Deus. Dizem que outras fazem com que as pessoas já tenham certeza que são Ele.
Pois bem, uma das piores profissões neste sentido: a odontologia. As pessoas associam dentista com dor, com sarcasmo, com o sádico e até com safadeza. Na verdade, é apenas o exemplo que temos. A TV sempre mostra um dentista estereotipado.
O Steven Martin tem um filme que mostra o dentista como um grande sádico. Inclusive mostra uma imagem de dentro da boca no momento em que o dentista coloca o "motorzinho" no dente. Quando mostro isso nas minhas palestras, algumas pessoas chegam a pular na cadeira, só de imaginar a broca no dente (é, isso dá direito a você de achar que eu sou sádico, também, mas é para o bem na nação). O filme é muito engraçado, mas triste para a profissão. No seriado Toma lá dá cá, o Diogo Vilela representa um dentista que parece uma pessoa sem muito senso crítico. O Jô Soares tinha um personagem dentista. Ele atendia as mulheres mais bonitas. O espelho dele tinha um cabo imenso que ele usava para tentar ver por baixo do vestido delas. O bordão, então, era: Bocão! No filme Procurando Nemo, o dentista é uma pessoa totalmente alheia às questões ambientais. Passa aquela imagem da pessoa egocêntrica. E assim, dia após dia, a imagem ruim foi se formando...
No fundo, ser dentista não é fácil. A profissão é altamente prejudicial à saúde. O barulho do "motorzinho" é mais alto do que os decibéis que o ouvido humano pode suportar. Portanto, com o tempo e uso contínuo, o profissional vai perdendo audição. A posição de trabalho, por mais que a ciência ergonômica tente ajudar, causa problema na coluna e nas articulações. O risco de infecção é grande. A maioria dos tratamentos exige um ambiente seco (esqueceram de avisar isso para o sangue e para a saliva). Isso sem contar com a falta de padrão no tamanho das bocas. Existem bocas no tamanho "plus extra grande" (o bocão no sentido literal é muito bem-vindo!). Nessas, dá para trabalhar com as duas mãos juntas, mais sugador, "motorzinho" e a mão da auxiliar, ainda, se precisar! Mas existem também as de tamanho "nano Litlle". Essas a gente mal consegue ver. Após tirar um dente do Siso em uma pessoa assim, o dentista pode ficar um mês sem academia!
Na verdade, o dentista é um ser solitário. Quer conversar com as pessoas, mas se assim fizer antes ou após a consulta, perde produção (ele também tem que pagar contas). O que faz, então? Tenta conversar com o paciente enquanto trata. Já viram isso?: você está lá com sugador, algodão para todo lado (lembre-se do ambiente seco) e coisa e tal e o dentista fica fazendo perguntas para você, tipo "como foi seu feriado?"; "o que você vai fazer no fim de semana?"; "você acha que vai chover?" e assim por diante (eu também fazia, confesso). Ele fica entre quatro paredes o dia inteiro entre ter que ser produtivo e ser humano. Realmente é desgastante.
E lidar com as vontades dos pacientes? Muitas vezes a pessoa briga com você para extrair um dente dela porque está com dor. Você tem que convencê-la que aquilo é um erro. Mas ela quer. É que nem criança: você explica e ela diz:"mas eu quero!"; você, então, explica mais uma vez e pergunta se ela entendeu. Então, ela dá o ultimato: "Entendi... mas eu quero!"
Enfim, estou dizendo tudo isso para tentar mostrar que a vida do profissional de odontologia não é fácil. São muitas as mazelas que o profissional passa. No dia 25 de outubro é comemorado o Dia do Dentista (embora haja um conflito de datas com o dia 3, também). De qualquer forma, quero deixar os parabéns para quem ama esta arte e a exerce de forma cativante. Que tenha força para superar os obstáculos (toda profissão tem) e que seja muito feliz ao praticar aquilo que escolheu e para o qual se preparou.
Claudinet Antônio Coltri Júnior é palestrante; consultor organizacional; coordenador da área de gestão da Educação Tecnológica do Univag e escreve em A Gazeta às quintas-feiras. Web-site: www.coltri.com.br - E-mail: junior@coltri.com.br - Twitter: http://twitter.com/coltri
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