Claudinet Antonio Coltri Junior

                      

 
  

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O que os olhos não veem o coração não sente
 


Realmente, entender o ser humano é algo cada vez mais complexo. Pregamos uma coisa e queremos (e fazemos) outra. Eu estou muito assustado com a reação das pessoas em relação ao cancelamento da prova do Enem. Esta reação nos mostra que as pessoas, efetivamente, gostam de reclamar.

Sempre que alguma coisa nos afeta, temos o péssimo hábito de dizer que o outro lado poderia ter feito diferente (e é claro, sempre poderia, mesmo). Porém, depois de uma situação estabelecida, é muito fácil ser profeta (é o que eu chamo de profeta do acontecido, ou seja, profetizar a partir do passado).

O fato é que houve uma fraude. As autoridades preferiram cancelar o exame. Qual a decisão que as pessoas esperavam? Ah, que o sistema de segurança evitasse que ela ocorresse. Triste informação aos senhores: não há sistema de segurança que impeça alguém de colocar um papel em suas roupas íntimas (e não venham pedir papel com chip, por favor, pois alguém ainda poderia desligar o sensor na hora da saída). O sistema de segurança mais eficaz vem dos princípios que cada um tem. Sempre teremos pessoas de caráter ruim trabalhando nas organizações (em qualquer âmbito). Portanto, não espere lisura de todos em todos os processos.

É preciso tomar cuidado com o dito "o que os olhos não veem o coração não sente". As autoridades, com certeza, poderiam ter abafado o caso e não deixado chegar a notícia da fraude para a sociedade. Se a prova tivesse acontecido, quase ninguém ficaria sabendo. Caso chegasse a informação pra nós, via de regra, chegaria através de alguém que foi desclassificado. Então, pensaríamos que era apenas despeito e não levaríamos em consideração. Em sendo assim, as pessoas beneficiadas pela compra das provas estariam nas melhores faculdades do país. E nós, como crianças tristes, chupando o dedo.

O que quase ninguém está conseguindo ver é que, como em poucas vezes na história deste país, a justiça está sendo feita. Seria caro, para cada um dos estudantes, o preço de se fazer uma prova onde as cartas já estariam marcadas. E não podemos ser infantis ao ponto de achar que nunca vazou uma prova na história deste país - o que ocorria é que apenas não sabíamos (e por isso não nos revoltamos ). O que os olhos não veem o coração não sente.

Portanto, precisamos parar com essa ladainha de manifestações contra o cancelamento da prova do Enem. Há muitos interesses em jogo. Muitas escolas prometeram, por onze anos da vida estudantil de cada aluno, os preparar para fazer a tal da prova do vestibular. Era decoreba pura. Agora, o Ministério da Educação resolveu mexer no sistema e a turma toda ficou sem chão. As regras mudaram. Como refazer, em menos de um ano, o modelo de estudo dos alunos. Eles terão dificuldades. O maior problema é que há escolas (muito poucas) que trabalham de modo diferente. Elas ensinam e preparam para realmente aprender, não com foco em uma prova. Essas poucas estão na vantagem, agora. Assim, os grupos educacionais que trabalhavam no modelo antigo, se viram perdidos. Podem tomar uma "lavada histórica".

Portanto, não se deixe levar pela raiva, pela indignação pelo cancelamento da prova. Foi uma atitude louvável e difícil das autoridades. Caso não a tomassem, e a notícia da fraude chegasse à sociedade, seriam acusadas de negligentes (no mínimo), ou de estarem compactuando. A fraude aconteceu, não tem como ser evitada (tem como ser rastreada e foi o que ocorreu). Como tomaram a decisão certa, porém interferindo em todo o sistema de vestibular, acabaram sendo acusados de incompetentes. É o problema do dilema: fraudes vão acontecer. E quando acontecer, o que fazer? Arriscar deixar tudo como está para ver como é que fica? Preferir enganar, já que o que os olhos não veem o coração não sente, ou tomar a melhor decisão, mesmo que ela tenha impactos profundos? Até por saber que um dia a vida pode me colocar neste tipo de dilema, eu fico com a decisão que deixa os fatos transparentes (duela a quem duela, como diria Collor de Mello). E você, com qual tipo de decisão fica?

Claudinet Antônio Coltri Júnior é palestrante; consultor organizacional; coordenador da área de gestão da Educação Tecnológica do Univag e escreve em A Gazeta às quintas-feiras. Web-site: www.coltri.com.br - E-mail: junior@coltri.com.br - Twitter: http://twitter.com/coltri


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