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É comum ouvirmos a frase "Isto não tem lógica!". Eu mesmo costumava dizer (e ainda me policio para não soltar a pérola). No fundo, tudo tem uma lógica. O que ocorre é que muitas vezes não percebemos qual é a lógica daquilo que estamos presenciando.
Mario Sérgio Cortella, em seu livro Não espere pelo Epitáfio, conta que o professor Benauro Roberto de Oliveira em suas aulas sempre lembra da história de um jovem jornalista que fez uma entrevista com o maior oceanógrafo do século XX, o francês Jacques Cousteau. O jovem, ansioso por entender sobre o nosso temor aos tubarões, perguntou a Cousteau sobre as chances que teria um ser humano de escapar ileso no enfrentamento direto com um desses aterrorizantes animais. Ele então respondeu: "As chances são nulas". O jornalista, não satisfeito com a resposta, continuou: "Se o tubarão já estivesse alimentado, ele também atacaria?" A resposta de Cousteau foi: "Sim". "E se estivesse se alimentando?", continuou o jornalista. "O tubarão atacaria", respondeu Cousteau. "E se fosse de noite, se estivéssemos numa jaula, se fôssemos muitos, se carregássemos um arpão, se entregássemos alguma isca etc?", indagou ainda o jovem jornalista. A cada pergunta, a resposta de Cousteau era a mesma: "O bicho atacará de qualquer modo". Irritado, o jovem bradou: "Mas isso não tem lógica!" foi quando Cousteau deu o veredicto: "Não tem a sua lógica, mas tem a lógica do tubarão!"
Um dos grandes motivos pelos quais brigamos e não entendemos as pessoas é exatamente por não compreender qual é a lógica delas. Buscamos nos relacionar com pessoas que têm uma lógica parecida com a nossa.
A lógica vem do sentido, da interpretação que damos (ou como enxergamos) as coisas. Como o ser humano pode ver as coisas de maneiras diferentes, por ângulos distintos (até porque dois corpos não ocupam o mesmo espaço no mesmo instante de tempo, pelo menos até surgir a lógica da física quântica - que muitas vezes parece não ter lógica), pode, então, perceber uma lógica diferente para um mesmo fato. Isso vira uma verdade e, a partir daí, não aceitamos outra lógica senão aquela que enxergamos (a lógica do vento, o caos do pensamento, a paz na solidão; a órbita do tempo, a pausa do retrato, a voz da intuição; a curva do universo, a fórmula do acaso, o alcance da promessa; o salto do desejo, o agora e o infinito, só o que me interessa - Lenine, É o que me interessa).
Por que temos a sensação de algo "não ter lógica"? Podemos entender a lógica como algo que nos mostra um começo, meio e fim, ou seja, um processo integrado, que pode ser entendido e repetido, com características que fazem sentido. Quando não faz sentido é porque não conseguimos entender o processo. Tem começo e fim, se repete, mas não conseguimos enxergar o caminho percorrido para se chegar ao resultado. Por exemplo, muita gente, inclusive muitos profissionais da área de informática, costumam dizer que ela, a tão temida informática, tem vida própria. Isso ocorre exatamente quando o equipamento não responde a um comando lógico (pela nossa óptica) e traz um resultado totalmente não esperado (e que se repete). A informática não tem vida própria (ao menos por enquanto). O que ocorre é que existe uma lógica na resposta maluca que ela nos dá, mas que não conhecemos. O poeta inglês Alexander Pope no poema Ensaio (1734), diz que: "Tudo que é Natureza é arte que desconheces; tudo que é acaso é direcionamento que não podes ver; tudo que é discordância é harmonia não compreendida".
Em sendo assim, precisamos procurar a lógica do natural. O "nosso" planeta, a Via Láctea, o universo, enfim, são completamente feitos de leis, de lógicas. Compreendemos muito pouco dessas lógicas. E elas se aplicam desde as relações mais profundas do universo até o relacionamento humano (com os outros e com ele mesmo).
Aprender, compreender, então, é simplesmente descobrir a lógica das coisas. Conviver é tentar entender a lógica do outro. Amar-se é entender a sua lógica. Ter paz é entender a lógica da justiça. Viver é entender a lógica de percorrer um caminho único, somente seu. Para você, isso tem lógica?
Claudinet Antônio Coltri Júnior é palestrante; consultor organizacional; coordenador da área de gestão da Educação Tecnológica do Univag e escreve em A Gazeta às quintas-feiras. Web-site: www.coltri.com.br - E-mail: junior@coltri.com.br - Twitter: http://twitter.com/coltri
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